sábado, 4 de maio de 2013

E como a mais ridícula piada, as primeiras gotas que saíram das minhas entranhas me fizeram imaginar a gargalhada satisfeita do destino, por me deixar presumir o que seria feito do meu sonho nos próximos minutos. Um sonho acalentado por tanto tempo, e que eu teria acalentado por toda a eternidade, começava a se desfazer diante dos meus olhos em forma de sangue. Em forma de dor. Dor viva que anunciava morte. Minhas mãos ensanguentadas marcaram no azulejo branco o primeiro dos dias de um vazio cruel. Sozinha gritando com as forças restantes por um socorro que nunca veio, que nunca viria. Desvanecendo de dor. E eu permaneci ali, não sei por quantas horas ou dias, desejando, até mesmo esperando morrer junto com meu filho. Esperando em vão e eu já devia saber. O pior castigo não era a morte, mas a vida que iniciava ali.
05-11-2011

"Eu discordo!", esbravejou Justine, apertando com força a taça de cristal que um dia conseguiu contemplar sorrindo sem saber ao certo o porquê. Talvez por ser ainda mais velha que as quatro paredes rachadas que rodeavam a vida ali. Ou por ser a única coisa que, depois de tanto tempo, ainda conseguia brilhar. O eco de suas duas palavras desfez um nó que há muito havia prometido eternidade. Era sua última frase. De fato, nenhuma a mais se fazia necessária. 
"Eu discordo!", Lucas repetia para si todas as noites. Era como se pudesse ouví-la dizer que “talvez ele mesmo já consentisse aquele dia a dia hostil e tudo bem também se o resto do mundo já não tinha nada a ver com isso: para ela, todos aqueles pontos de sangue e cristal no chão significavam um ponto apenas. Ponto final.” E que queria dizer discordar? Que estranha força tal palavra possuía para ser capaz de arrancar violentamente Justine do silêncio, do medo e de Amadora? Às vezes, durante as sucessivas madrugadas eternas sem ela, a chuva caía tão insistentemente que parecia querer sussurrar-lhe a resposta. Nessas horas, Lucas tentava simplesmente dormir. Sonhou que não tão longe dali, lágrimas e suor se fundiam no corpo de Justine. Um dia, não conseguindo visualizar um futuro convidativo onde estava, ela se deu conta de como adorava ser sua pior inimiga, alimentando as torturas mais terríveis, como se desejasse saber até que ponto sua alma aguentaria a pressão sem se deixar esmagar, como fizeram os sonhos. Os anos. A taça de cristal. Talvez, pensou Lucas, nessas e em outras horas, imersa na mais profunda urgência de fuga, Justine, como ele, desejasse apenas dormir.
18-09-2012

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Olha, meu amor
Continuo te traindo
E ainda assim te peço
Me deixe te ver dormindo
Mamãe me deu de tudo
É isso que me revolta
Por mim, ela vai embora
E você, se puder... Volta?
É só você chegar e eu fico em paz
Mas se você se afasta
Ancoro o barco em outro cais
Amor, se olhares bem
Verás que só faço mal
Por que olhaste pra trás?
Doce estátua de sal

domingo, 14 de abril de 2013

Ah, se eu te beijo agora


Dorme comigo essa noite, eu pago o táxi
Dorme comigo essa noite, eu pago o preço
Manda esse velho falar comigo que eu resolvo
Ei, pula da janela e dorme comigo essa noite
Mas Ellen, Ellen, Ellen…
Diga oi pra eu poder chorar
Porque teu nome é quase um mantra e tua voz é uma canção
E existe aí a possibilidade
De seres a mulher que meu destino escolheu
02/10/2012

quarta-feira, 10 de abril de 2013


Eu sempre tentei agradar minha mãe e o auge da frustração foi quando ela tentou impedir que eu fosse a única coisa que eu realmente sabia ser: Homossexual. As pessoas costumam dizer que sou bi, mas eu não me intitulo assim, quero ser levada a sério. A verdade é que homens me atraem numa proporção quase igual às mulheres, mas com elas eu me sinto mais segura. Minha mãe me levou a vários psicólogos. Ela jura que minha orientação sexual está diretamente ligada ao fato de ter sido estuprada aos 11 anos. Isso não é verdade. Eu já sabia que gostava de meninas antes disso e, sinceramente, não ligo se ela acredita ou não. Mesmo assim, não vou mais a psicólogo algum. Não faz sentido falar sobre aquele episódio horrível a essa altura. Sabe? Eu demorei anos pra me livrar do transtorno de pânico causado pelo trauma e, não obstante, os psicólogos acham que falar sobre o assunto vai me fazer bem a longo prazo. Foda-se o longo prazo. Não me sinto mais infeliz ou azarada que ninguém por levar a vida que levo. Uma em cada três mulheres serão violadas durante sua vida. Todos nós nos drogamos de algum modo. E todos nós vamos morrer também. São três da manhã e eu estou com frio. Sinto falta de quando a Fernanda dormia comigo. A essa hora, estaríamos lá em casa, cheirando cocaína e fazendo amor. Mas isso já faz três meses. O tempo cronológico passa rápido e agora eu estou na casa de um semi desconhecido, sem dinheiro pra comprar o pico e Petrúcio está com fome. Petrúcio é o meu cachorro. O dono da casa se chama Julio. É um cara legal, me ajudou pra caramba. Sinto-me mal por não ter como pagar essa dívida. Ele tem dinheiro e a geladeira é convidativa, mas prefiro passar fome. Não saí de casa pra depender de homem. Muito menos de um semi desconhecido. É lamentável iniciar uma amizade nessas circunstâncias. Fico constrangida o tempo inteiro, como se nós dois tivéssemos interesses velados. Faço o possível pra ele não achar que quero seduzi-lo numa tentativa de permanecer mais tempo aqui. Ele insiste em dizer que está mais feliz desde que eu cheguei. É complicado, porque eu realmente não tenho pra onde ir, mas receio que ele ache que pode ter mais de mim... Essa situação não vai se sustentar por muito tempo. Quero me mandar daqui o mais rápido, só não sei como. Já pensei em virar puta, mas nunca em voltar pra casa. Foi só quando começou a chover na madrugada do meu aniversário e eu achei que era álcool o que caía do céu, que percebi do que minha abstinência é capaz. Nessa noite brilhante, eu e Julio fizemos sexo quase selvagem. Nós nunca tínhamos tido qualquer tipo de contato íntimo, mas eu estava inconsequente e agressiva demais pra me importar com esse tipo de coisa. A casa não demorou muito a cair. Acordei e vi uma rosa e um bilhete em cima da cama. “Feliz aniversário!” Me vesti e saí do quarto, torcendo pra não esbarrar com ele na sala, mas isso aconteceu. Agradeci com um breve sorriso e fui embora. Ele abriu a porta atrás de mim, perguntando se a noite de ontem não tinha significado nada. Fechei os olhos mas não pude evitar por muito tempo o encontro dos olhares. O meu, atordoado. O dele, irredutível. Exigia uma resposta. Foi aí que tudo desandou. Minha reação foi dizer que era melhor eu sumir. A dele, dizer que devíamos ficar juntos. E que estava gostando de mim. Admirei sua coragem. Definitivamente, não a possuía. Repliquei que não achava que fizesse muito sentido iniciar um relacionamento com uma pessoa casando-se com ela. Ele riu-se e, com desdém, disse que o resto da minha vida também não fazia. Exatamente como eu previa, uma noite de intimidade transformou nossa relação irreparavelmente. Eu chamei o elevador. Ele entrou em casa, claramente impugnado. A salvação pra esse dia de merda é que era o meu aniversário e, por isso, nada mais justo do que ser presentada com maconha, álcool, doces e tudo que eu tivesse direito. E não demorou muito pro Ian me ligar. Foi bom chegar ao circo e ver meus amigos. Abstrair. Estava com tanta vontade de fumar que quase não notei a Fernanda de vestidinho se equilibrando no monociclo. Ninguém me deu os parabéns e eu esperei que a bendita surpresa começasse logo. Fiquei na minha e, por sorte, não demoraram muito com a brincadeirinha. Bolo de maconha e cerveja liberada! Às vezes, nós parecíamos uma família. 

sábado, 6 de abril de 2013


Se minha primeira reação não foi racional, se eu tinha que ir e escolhi ficar... É porque, provavelmente, tocou no coração. E quando você fecha os olhos e suspira por uma fração de segundos, o tempo para pra eu contemplar a beleza do acaso. Podia não ter sido, mas foi. Poderia vir a ser, mas não será. E é isso o que significa a expressão "felizes para sempre". Nós, que quando pesarmos os prós e contras, vamos desistir dessa maluquice frustrados, fomos felizes para sempre no momento em que sorrimos ao vermos a imagem que refletia no espelho quando crianças. É irônico porque eu não esperava encontrar alguém tão bonito quanto minha infância em meio a tanto vazio. Mas a vida não liga pro que espero ou desespero. Ela te trouxe e vai te levar como bem entender. É por isso que eu te olho tão devagar. Da primeira vez seus traços se perdiam na memória, mas desde ontem seu rosto está perfeitamente desenhado na minha frente. E não tem sacudida de cabeça que te dilua na realidade da ausência.