segunda-feira, 7 de julho de 2014

sentidos
sortidos
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Do ano passado

Vamos fazer de conta
Que não fiz vocês chorarem tanto
Que não cheguei causando espanto
Não há motivo pra esse pranto
Estou tão enjoada, estou me sentindo mal
Eu não fui avisada do efeito colateral
A gente nunca sabe se a dor realmente cura
Estou tão enjoada, quero um copo de água pura
Transparente, de preferência
Ver o mundo sem interferência
Como um copo de água pura
Como essa rua é escura!
Como eu vim parar aqui?
Talvez lembrando consiga sair
Será que não tem saída?
Só tinha passagem de ida?

Nua por dentro

Dói uma dor anestesiada. Uma dor turva. Cinco da manhã. A insônia grita. Eu mal escuto o que quer que seja. Mas o fato de não dormir faz a noite não acabar. Sou a continuação do erro. Em carne viva e dopada pelo medo. Uma resposta? Aguardo-a nos sonhos. Vou pro mar. Não. É perigoso lá fora. Melhor trancar o medo em casa. O cansaço mal permite que os pés sintam o chão. O corpo não sente porque, acordado, dorme um sono sem sonho. A alma é que não suporta o próprio peso. Uma vida virada ao avesso numa noite, e nada faz sentido. Pensei ter visto seu desprezo ao ouvir de novo a palavra amor. Talvez eu possa aprender uma nova canção. Está doendo uma dor que não doía há muito tempo. Uma dor que não é minha: Atiraram em mim. Sou mágoa. Todos os dias tiveram um significado claro, mas o ontem que não quer passar não se revela. Qual é? Eu não me permito mais sofrer dessas dores que diminuem! Eu amo a dor - mas a que me faz crescer. O amanhecer é tão bonito que quase me distrai. Eu continuo pedindo ajuda às palavras.

Sou míngua.
A varanda da minha casa tem o dom de me calar. O rosa do pôr-do-sol reflete no azul do mar. A varanda daqui de casa tem som de água e mais nada. Na varanda de onde eu moro, eu adoro ficar calada. O céu está ganhando um novo tom de azul. Se o dia não se fez noite, há cores, de norte a sul. A lua sorri pra mim: timidamente minguante. E as ruas, vistas daqui, parecem muito distantes. Agora o Senhor Sol foi se por do outro lado. E o raio de luz que era rosa, foi ficando amarelado.
Passo todo o tempo comparando o que eu era com o que já não sou, na tentativa de entender o que me tornei. O vazio, a faca e o queijo. A ausência da mão. Querido Deus, em que parte de mim você se escondeu? Estou paralisada. Venham, sonhos, venham. Não adianta tomar um ansiolítico. Não estou ansiosa: Estou triste. "E o lugar mais frio do rio é o meu quarto."
Respire fundo e inspire. É como se uma flor vermelha se abrisse. É como uma sala branca, um copo transparente. Folhas laranjas na calçada. Uma tarde outonal da janela de uma clínica de recuperação.
Entre o agora e o mais tarde há uma infinidade de ondas e pensamentos sincronizados, carros e faróis, a velha casa abandonada com ar barroco, dedilhados, dedos entrelaçados.