sábado, 26 de janeiro de 2013

Se foi nesse abraço que eu me perdi...


Eu poderia lembrar do que foi bonito. Como quando eu te contei do ano novo, das horas que passei tendo alucinações que você estava na minha cama. Quando você ouviu a combinação dessas duas palavras, eu vi seu corpo tremer como se um arrepio o percorresse inteiro de súbito, uma descarga elétrica de lembranças das quais você foge o invadisse por completo. Mas será que a beleza desse arrepio que durou um segundo compensou a dor das horas que se arrastavam enquanto a saudade me sufocava e meu próprio delírio me ludibriava?

Quando eu te abracei de repente, você chorou, eu te embalei, e você disse que eu te devolvi pra você mesmo. E agora? Quem vai me devolver pra mim?

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Foi nessa tarde insignificante de terça-feira que encontrei a redenção. Debruçada sobre a janela, contemplando os bancos vazios onde costumávamos ficar, percebi que já não tinha por que sentir dor. Uma criança brinca. Uma ave atravessa o céu. Um cenário pelo qual meus olhos já se cansaram de percorrer e chorar. Banal. Porém, há pouco, choveu. A chuva foi o prêmio de consolação por ter sobrevivido calada todos esses meses. A redenção é a verdadeira coroa, afinal. Em outros tempos, achei que ela me traria você. Ou que você, sorrindo, a traria pra mim. Talvez eu tenha achado que uma coisa dava na outra. Não. É exatamente o contrário. Veja só, eu já nem esperava pela sentença e eis que chega a absolvição...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Às vezes eu gostaria de ser o narrador-observador da nossa história, pra então entender o quanto estou envolvida com ela e quanto de mim está do lado de fora. Não necessariamente por escolha, tampouco por não amar, mas por não conhecer o resultado da soma de nós dois, por não saber fazer o cálculo. Tão inexato... Tão humano.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012


O fim do mundo perfeito. Do nosso. Apoteótico como eu tanto disse merecermos. Gemidos, sussurros, janelas quebradas. “Ninguém sabe o que de fato aconteceu. As pessoas apenas especulam. Está vendo?” Não estou vendo. Eu não vejo nada. Você me enterrou. Viva! É a ausência da morte que vem me assassinar. Eu estou viva. Por amor, me tire daqui ou me mate de vez.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


"Então seguirei meu coração até o fim, pra saber se é amor. Magoarei mesmo assim, mesmo sem querer, pra saber se é amor. Eu estarei mais feliz, mesmo morrendo de dor."
   Querida Ana,
O que você está fazendo ao meio-dia? Comendo coxinha e correndo pra pegar o metrô? Será que hoje você vai encontrar um rosto diferente, no meio da multidão? Será que no caminho pra casa vai reparar no pôr-do-sol? É dia de lua cheia? Hoje eu dancei. Eu conheci uma bailarina. Por alguns instantes, nem senti sua falta. Em outros, enquanto dançava, desejava que você visse. Não é engraçado? Eu dancei. E conheci alguém. Eu precisava compartilhar. Não precisa entortar a cara, da moça eu nada sei. Tudo que sei sobre ela é que desliza. Será que também tenta esquecer um grande amor? Ela come coxinha ao meio-dia? Presta atenção no pôr-do-sol? Essa tarde eu me senti num daqueles filmes franceses que nós costumávamos ver pra relaxar depois das provas de anatomia. Saí de casa desejando não muito mais do que me matricular nas aulas de violão clássico pra fazer as pazes com minha consciência que me lembra toda noite o quanto minha vida está desmoronando a olhos vistos, e conheci uma bailarina que me convidou pra roda. E eu entrei na contradança sem saber como se dança, eu não sei dançar. Preciso ter uma conversa com Deus, pedir que ele pare de gracinha, isso lá é hora de aprender a dançar, se eu nem mesmo consigo voltar a frequentar as aulas de anatomia por causa do maldito prefixo grego? Hein, Deus? Hein, Ana? Por que não me conta de você? Daquela parte do dia que te fez sorrir e em seguida te lembrou que não estamos juntos e que não é tão fácil não poder dividir nem mesmo a coxinha, quem dirá um sorriso. Fala do futuro, se quiser. Sem planos? Sem segundo interessante do dia, nem saudade de dividir a coxinha? Por favor, não pode ser verdade, ninguém vive assim sem sentir. Fala da barba do professor de teoria prática, então. Parece mais interessante, agora que você está solteira? Ou menos interessante, porque era tudo pra me provocar? Juro que preferia saber a verdade a imaginar que nada mudou na sua vida, que a barba do professor não está nem um centímetro mais nem menos atraente do que antes, que os planos para o futuro são exatamente iguais, excluindo somente a parte do casamento em 2014 e da lua de mel em Lisboa. Ana, eu menti. Pode continuar telefonando pra minha mãe e fingindo que vocês são grandes amigas. Eu não me importo. Pode dormir no quarto da minha irmã nos dias em que ficar muito tarde pra voltar pra casa. A rua da sua casa é muito escura à noite. Pode bater na porta do meu quarto só pra perguntar a hora, celulares descarregam sim. E pode ir embora se quiser. Vai. Mas não sem voltar, ainda que seja sob um pretexto qualquer, que seja só por um segundo, que seja sem me olhar nos olhos. E... Ana, por favor, não demora.

P.S: A classe de violão clássico fica ao lado da sala de dança.